Skip to content

Olhar de Cinema 2024, #01

VERSÃO EM PORTUGUÊS

It is a pleasure to be back in Curitiba for another edition of Olhar de Cinema, a great international film festival in the South of Brazil. It’s my third time at Olhar, after a ten-year span in which I could only join their two online editions, and it’s been a good opportunity to catch up with friends, watch new films, and a few repertory screenings. This year, I am a member of the jury of the international competition and the Novos Olhares section, which is devoted to boundary-pushing feature films. For that reason, I won’t be writing about those films—at least not during the festival—, which end up filling up most of my schedule here. But I hope to publish a few posts about some of the other screenings I have been attending, and noteworthy festival-related events. 

This year’s Olhar de Cinema opened on Wednesday with Marcelo Gomes’ Retrato de Um Certo Oriente (Portrait of a Certain Orient, 2024). It was the first screening of the film in Brazil following its premiere at International Film Festival Rotterdam. An adaptation of Milton Hatoum’s award-winning novel Relato de um Certo Oriente (1989), the narrative takes cue from historical events: the Lebanese immigration to the Brazilian Amazon. While the novel juxtaposes several narrators, and constantly travels through time, the film is much more contained and straightforward, focusing on the trip from Lebanon to the Amazon by three core characters.

The structure can be roughly broken down into three parts. The first one accompanies two of the characters—the catholic siblings Emilie (Wafa’a Celine Halawi) and Emir (Zakaria Kaakour)—and provides some backstory for their (his) decision to flee their home country. The second one takes place entirely on boats: a transatlantic trip between Lebanon and Belém, in which Emilie falls in love with the Muslim merchant Omar (Charbel Kamel); and a riverboat journey from Belém to Manaus, where the characters end up settling—which is the focus of the third part. 

But the most interesting aspect of the film is perhaps metahistorical. While the epic portion of the trip is undercut by a soft romanticism deescalated by a dispersive (and not digressive) montage, at times recalling the ornamented, and somewhat indistinct cosmopolitanism of 1990s world cinema (Bernardo Bertolucci’s 1998 L’Assedio comes to mind), when they finally settle in Manaus the film encounters a surprising point of reference: the work of Humberto Mauro—one of Brazil’s greatest directors of the silent era. If the characters will have to adjust to a new environment, the arrival in Manaus leads Portrait of a Certain Orient toward its own cinematic origin: despite the visual references to Mario Peixoto’s Limite (1931) and Sergei Eisenstein’s Battleship Potemkin (1925), it is Mauro’s great eye for faces and landscapes, and the peculiar combination of rural melodrama and erotic humor of classics such as Sangue Mineiro (Blood of Minas Gerais, 1929) and Ganga Bruta (Rough Gang, 1933), that suggest the particular color, texture, and temperature of this other place that the characters will now call home. That the film ends up finding such an unexpected sense of cinematic home while its characters adjust to an ostentatiously foreign land seems like an appropriate way to, at last, take their journey together full circle.


* * *


Olhar de Cinema 2024, #01

É um prazer estar de volta a Curitiba para mais uma edição do Olhar de Cinema. Volto ao festival pela terceira vez presencialmente, depois de dez anos em que acompanhei apenas duas edições online, e tem sido uma boa oportunidade para rever amigos, assistir a novos filmes e algumas exibições de repertório. Este ano, integro o júri da competição internacional e da seção Novos Olhares, dedicada a longas-metragens que exploram novas possibilidades estéticas para o cinema. Por esse motivo, não escreverei sobre os selecionados dessas mostras—pelo menos não durante o festival—, que acabam ocupando a maior parte da minha agenda. Mas espero publicar algumas impressões sobre outras sessões, e eventos dignos de nota relacionados ao festival. 

Este ano, o festival foi iniciado na quarta-feira com o filme Retrato de Um Certo Oriente (2024), de Marcelo Gomes. Foi a primeira exibição no Brasil após sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Roterdã. Adaptação do premiado romance Relato de um Certo Oriente (1989), de Milton Hatoum, o longa conta história inspirada em fatos históricos: a imigração libanesa para a Amazônia brasileira. Enquanto o romance justapõe vários narradores diferentes e viaja constantemente no tempo, o filme de Gomes é mais contido e direto, concentrando-se na viagem do Líbano para a Amazônia de três personagens principais.

A estrutura pode ser dividida em três partes. A primeira acompanha duas das personagens—os irmãos católicos Emilie (Wafa’a Celine Halawi) e Emir (Zakaria Kaakour)—e traz alguns dados de fundo que ancoram a decisão deles (ou, mais propriamente, dele) de deixar seu país natal. A segunda parte se passa inteiramente em barcos: uma viagem transatlântica entre o Líbano e Belém, na qual Emilie se apaixona pelo comerciante muçulmano Omar (Charbel Kamel); e uma segunda em um trajeto fluvial de Belém a Manaus, onde os personagens por fim se estabelecem—que é o foco da terceira parte. 

Mas o aspecto mais interessante do filme me parece ser metalinguístico. Enquanto a parte épica da viagem é minada por um romantismo suave e uma montagem dispersiva (e não digressiva) que tira o potencial dramático das cenas, por vezes lembrando o cosmopolitismo ornamentado e um tanto indistinto do world cinema dos anos 1990 (Assédio, de Bernardo Bertolucci, de 1998, vem à mente), é quando o filme finalmente se estabelece em Manaus que ele encontra, enfim, um ponto de referência: os filmes de Humberto Mauro. Se, por um lado, as personagens terão de se adaptar a um novo ambiente, por outro, a chegada a Manaus leva Retrato de um Certo Oriente à sua própria origem cinematográfica: apesar das citações a Limite (1931), de Mário Peixoto, e O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein, é olhar privilegiado de Mauro para rostos e paisagens, e a combinação peculiar de melodrama rural e humor erótico em clássicos como Sangue Mineiro (1929) e Ganga Bruta (1933), que sugerem a cor, a textura e a temperatura específicas desse outro lugar que as personagens passarão a enxergar como um lar. Que o filme acabe encontrando um inesperado pertencimento cinematográfico justamente enquanto seus personagens se estabelecem em uma terra ostensivamente estrangeira parece ser uma maneira apropriada de, finalmente, completar sua jornada juntos. 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *